Um giro ao sol,ciranda poética

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Vento

"tudo vem do vento,
dovento,
doventovemtudo....

alimenta o fogo
...atormenta o mar
arrepia o corpo
joga o ar no ar
leva o barco à vela
levanta lençóis
entra na janela
leva minha voz
nuvens de areia
folhas no quintal
canto de sereia
roupas no varal

tudovemdovento,
tudo vem do vento,
do vento vem tudo..

sacode a cortina
alça os urubus
sai pela narina
canta nos bambus
cabelo embaraça
bate no portão
espalha fumaça!
varre a plantação
varre o pensamento
deixa o som chegar
leva esse momento
traz outro lugar

tudo vem do vento,
tudo vem,
do ventovemtudo!
tudovemdoventodoventovemtudo!"


UNO

"As minhas mãos mantêm as estrelas,
Seguro a minha alma para que não se quebre
a melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas."
...
(Sophia de Mello Breyner)
 
 

Quem dera...

Quem dera
menina
diante do céu
contar estrelas
nos dedos
...como se contam
os dias que findam
um ano...
Mas a menina soma
estrelas nas mãos
O tempo pra ela
é mero encantamento
que separa o dia e a noite
da realização
dos sonhos.

(Sirlei L. Passolongo)


TE AMO



Sobre todas as coisas, te amo
Te amo por tua beleza, cravejada de ouro e cinzas

...Te amo por esta branda fúria que trazes no olhar,
que quando não me fuzilas,
me elevas ao último céu

Te amo pelo desespero que me provocas,
e por esta repentina paz que me despertas,
pouco antes de minha morte

Te amo por nunca me ouvires quando te chamo,
e por estares sempre presente,
quando menos te quero

Te amo por tuas mentiras mal contadas,
das quais, por vezes faço questão de acreditar,
e pela incredulidade que me fazes sentir,
diante das tuas mais obscenas verdades ...

Por fim,te amo, porque é só o que sei fazer;
te amo simplesmente pelo que tu és,
e pelo que nunca fostes.
 
 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.
Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.
Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

[Fernando Pessoa]

Vinicius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar [ extático da aurora.
Vinicius de Moraes

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Quem pagará o enterro e as flores, Se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo Para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeralDirá de mim: — Nunca fez mal...Quem, bêbado, chorará em voz alta De não me ter trazido nada?Quem virá despetalar pétalasNo meu túmulo de poeta?Quem jogará timidamenteNa terra um grão de semente?Quem elevará o olhar covardeAté a estrela da tarde?Quem me dirá palavras mágicas Capazes de empalidecer o mármore?Quem, oculta em véus escurosSe crucificará nos muros?Quem, macerada de desgostoSorrirá: — Rei morto, rei posto...Quantas, debruçadas sobre o báratroSentirão as dores do parto?Qual a que, branca de receioTocará o botão do seio?Quem, louca, se jogará de bruçosA soluçar tantos soluçosQue há de despertar receios? Quantos, os maxilares contraídosO sangue a pulsar nas cicatrizesDirão: — Foi um doido amigo...Quem, criança, olhando a terraAo ver movimentar-se um verme Observará um ar de critério?Quem, em circunstância oficialHá de propor meu pedestal?Quais os que, vindos da montanhaTerão circunspecção tamanhaQue eu hei de rir branco de cal?Qual a que, o rosto sulcado de ventoLançara um punhado de sal Na minha cova de cimento? Quem cantará canções de amigoNo dia do meu funeral? Qual a que não estará presentePor motivo circunstancial?Quem cravará no seio duroUma lâmina enferrujada?Quem, em seu verbo inconsútilHá de orar: — Deus o tenha em sua guarda.Qual o amigo que a sós consigoPensará: — Não há de ser nada...Quem será a estranha figuraA um tronco de árvore encostadaCom um olhar frio e um ar de dúvida?Quem se abraçará comigo Que terá de ser arrancada?Quem vai pagar o enterro e as floresSe eu me morrer de amores?

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

PREPARAÇÃO PARA A MORTE




A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
- Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Manuel Bandeira
In Estrela da Vida Inteirta


DEUS-JÁ-VI

Foi numa praia em preto-e-branco
Numa noite expressionista
Sim, eu quase me lembro bem
Foi na época do meu primeiro monólogo com
deus(?)
Eu gritava e ele não respondia
Apenas me olhava
E eu andava calçado na água salgada
Um grito me acordou
E vi-me num sonho redondo e simétrico
"Socorro," gritou o que fui
De leve esbarrando no que sou
Torci para não ser reconhecido
Mas na multidão de eus,
Fui eu o escolhido
Cortei-me fundo, procurando uma veia
Mas só achei um veio de mercúrio
E eu estava longe, muito longe
Longe demais para gritar:
Morte, riso, planta, mulher
deus seja aquilo que eu o quiser!


Eduardo B. Penteado

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Eu te amo

Eu te amo como a violência das manhãs chuvosas
E a calma de um sábado.
Eu te amo como a madrugada desvirgina a noite
E como o céu guarda a lua.
Eu te amo sem razão e sem objetivo,
Sem começo nem meio.


Meu poema é uma oração que procura sua boca,
Que vasculha seu corpo.

Meu amor é simples e louco,
A pincelada amarela de Van Gogh,
A nota perdida de um tango de Piazzolla,
A palavra caída de Vinícius.

Eu te amo como o mortal
Que guarda a infinitude da solidão.
E te amo tão total e loucamente
Que você não nota,
Não sente.

Ah, se você pudesse sentir esse amor
E me mergulhar a cada instante,
Saberia, enfim,
Que se morre de amor
Para ter vivido.
 
Cássia Janeiro.