Um giro ao sol,ciranda poética

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Flores para Coimbra



Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.


Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.


Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem.
E outras nenhumas não.

Manuel Alegre

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A filosofia do amor

Percy Bysshe Shelley (Tradução José Lino)
I
As fontes mesclam-se com o rio
E os rios com o Mar,
Ventos do Céu em mútuo rodopio
Em doce emocionar;
Nada no mundo é singular;
Tudo, da lei divina sob abrigo,
Num espírito se acha no mesclar,
Por que não eu contigo? —
II
Mirem as montanhas a beijar o Céu
E as ondas a se abraçar;
Qualquer flor-irmão estaria ao léu
Se seu irmão fosse desprezar;
e a luz do sol vem a terra abraçar
E os raios de luar osculam o mar:
De que vale esse puro laborar
Se você não me beijar?

terça-feira, 26 de julho de 2011

A dança

"Não há música.
Só o barulho do vento,
e das folhas que caem.
Mesmo assim sinto vontade de dançar.
.
É que meu olhar exagera o amor,
e pensar em você acende em mim uma esperança.
É como traçar um caminho,
que a gente sabe que nos leva de volta prá casa.
.
Agora eu sei que a minha solidão protege a sua,
como um sorriso que não está lá.
É por isso que sinto um desejo bom,
e uma vontade louca de que isso baste prá você também,
e quem sabe te ponha a dançar..."

Solange Maia

domingo, 24 de julho de 2011

A tribo do bem


Há gente que,
em vez de destruir,
constrói;
em lugar de invejar,
presenteia;
em vez de envenenar,
embeleza;
em lugar de dilacerar,
reúne e agrega.

(Lya Luft)




A sabedoria dos pássaros


"Mais sábios que os homens
são os pássaros.
Enfrentam as tempestades
noturnas, tombam
de seus ninhos, sofrem
perdas, dilaceram suas histórias.
Pela manhã, têm todos os motivos
para se entristecerem
e reclamarem, mas cantam
agradecendo a Deus por mais um dia.''


Bom dia...Vida!

Uma manhã novinha acaba de nascer...
O céu,ainda bordado de estrelas sonolentas
escondidas pelo véu das nuvens de algodão...
O sol nossa estrela amada saúda a vida e o dia
E o faz fervilhante de beleza e agitação.
Esta ciranda Divina e perfeita que acalenta
E vem encher de graça e esperança cada coração.
Celebre o novo dia com alegria e destemor,
Desaprendendo a tristeza e a nostalgia.
A vida é bela,ainda que incerta e mal fadada...
Existe um céu de muitas luzes acima de sua cabeça
A derramar efluvios celestes em sua direção.
Basta aceitar este presente doado com amor
E ter olhos de criança deslumbrada.
-Hlena Frontini-

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Serena

Com um copo com embutidos de lazúli
espera por ela

Sobre o lago em volta da tarde e o perfume de flores
espera por ela

Com a paciência do cavalo pronto para descer a montanha
espera por ela

Com o bom gosto do príncipe magnífico
espera por ela

Com sete almofadas cheias de nuvens leves
espera por ela

Com o fogo do incenso mulher enchendo o lugar
espera por ela

Com o cheiro do sândalo homem em redor do dorso dos cavalos
espera por ela

E não tenhas pressa, e se ela chegar depois da hora
então espera por ela

E se ela chegar antes da hora
então espera por ela

E não assustes os pássaros que estão nas suas tranças
e espera por ela

Para que ela se sente descansada como um jardim no cimo da sua beleza
e espera por ela

Para que respire este ar estranho no seu coração
e espera por ela

Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela

Mahmûd Darwîsh

domingo, 2 de janeiro de 2011

Gaia

Gaia

Uma fenda, um espaço no tempo que crio. Um jardim, uma fonte onde ninfas, náiades, sátiros e pãs dançam ao som de címbalos e flautas encantadas. Envolvo-me em em trajes flutuantes num circulo excitante, lascivo e tentador. Sinto o vento... suave, quente como um hálito a deslizar na pele maliciosa, enquanto lábios me procuram o corpo com toques de seda, e me confundo nas sombras. Sinto os movimentos, as vibrações e penso em profecias de amor eterno e penso no tempo a virar páginas rápido demais. Envolvo-me feito dança. Rodopios de valsas... E voo nas asas dos sonhos escorregando para dentro dos espelhos onde me enrosco em gestos, braços pernas e pelos, sentindo véus e mãos, ousando truques e uma insaciável luxuria. Uma fogueira de astros resplandecentes onde brilham todos os sóis, estranhos planetas, outros sistemas e durmo... E acordo sorrindo esticando os braços, revirando na cama fazendo graça, cheirando prazer, narciso, tulipas, miosótis, violetas...

Mara Araújo


A pulsar, a pulsar...

A pulsar, a pulsar...

Dançarei diante minha morte aos olhos do sol e de todos os elementos. Da terra para a terra, do pó para o pó. Falarei de todas as batalhas perdidas, das perplexidades e das frustrações, enquanto um vento brando varrerá ...com cuidado todas as dores.
Dançarei diante da minha morte como chama, faíscas brilhantes de um fogo que refletirá nas águas dos rios que purificarão a minha alma, que se libertará.
Dançarei diante da minha morte uma última vez diante de uma lua branca de paz, e cantarei vitorias, alegrias e sorrisos. Meus amores não mais me pertencerão. Bailarão diáfanos em véus de todas as cores e voarão como chama eterna na imortalidade das grandes paixões.. E será meu coração no universo, a pulsar... A pulsar...

Mara Araújo
 
 

Eu ouço as canções que vem do mar

Eu ouço as canções que vem do mar

Lápis-lazúli. Cavalos com olhos de fogo troteiam rasgando mares e planetas, o universo, estrelas e formas. Tropéis cascos e fúria cortando túneis e vagas... Grandes vazios, todas as marcas de mãos, fendas ca...vernas e fantasmas de tantas embarcações. Sulcos cavados, rochas de vulcão, corais. Vento de mar bravio atravessando cometas, abismos, precipícios e limites. Tropéis e agua de mar salgado. Sede e frio afugentando espíritos e toda a ideologia, todos os dragões mitos e lendas. Eu ouço as canções que vem do mar. Azul-furtado. Cavalos alados. Agua viva, madrepérola, continentes conchas e cristais onde uma lua branca brilhante e nova abrange rompendo o medo como um facão, um clarão... Como um raio num jorro de pedras preciosas brilhantes rasgando luzes de infinitas cores, como cavalos brancos que galopam sobre o mar e suas canções. Como magia, como festa como sorriso... Sobre a imensa noite da lágrima.

Mara Araújo