Um giro ao sol,ciranda poética

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Verso In Verso

Uma folha solta no ar
procura desesperadamente o céu,
enquanto a gaivota de papel
sonha em ser pássaro.
Diz ser livre, leve e solta.
Mas só no meu pensamento aprisionada
é que consegue voar.

Muitas vezes acordo papel, querendo ser asa;
noutras, sou tijolo, pedindo ser casa...

Vivemos de sonhos possíveis,
sobrevivemos, apesar da realidade.
No rabisco das palavras e no risco do dizer,
arrisco em bem viver, além do dito e do ditado,
ora vacilante, ora encorajado
entre o sentido literal e o figurado...

O amor pelas palavras
e a descoberta da palavra amor...
Entre o que eu sinto, digo e penso
há um continente inexplorado...

Não desejo conhecer o meu futuro
nem em prosa ou verso.
Vá que descubra algo
e o presente que sequer foi aberto,
na surpresa, resolva trocar...

Como um poema inverso, em verso, disperso,
quero que o tempo passe por mim
como eu estou por ele a vagar...
A vida existe muito além
do que as palavras podem contar...
O amor existe muito além
do que o coração possa controlar...

Amar é como escrever um livro
em que dois poetas insones inventam
cada qual um mundo inteiro para o outro sonhar...
Aprendemos com o próprio amor
a escavar o passado, a plantar o presente
e o futuro, de forma inversa, inventar...

José Antonio Klaes Roig

fonte:

http://controlverso.blogspot.com/

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

HISTÓRIA DE AMOR

Como um bando de gaivotas que golpeia o céu escuro de inverno,
estou eu sem ti na lonjura do destino, sinto-me amordaçada.
Quero viver uma história de amor, onde tu e eu
rompemos a noite e viajamos pelo dia fora.
Ao entardecer nos acariciamos delicadamente e
nossas mãos se tocam e abres minhas asas de borboleta uma a uma.
Subtilmente me possuis e misteriosamente fecho-te em minha alma.
Nossos corpos tornam-se inúteis e se fundem.
Surge um céu azul de um amor puro.
Partimos ao amanhecer para o sono que nos espera faminto e nos leva o sonho.
Teimosos, reencontramo -nos no limbo da realidade.
Guardo as gotas doces que nossos olhos deixam na hora da despedida.

isabel maria

fonte:

http://blogmundosecreto.blogspot.com/

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Amor: o banquete dos sentidos – monólogo com Platão

Será o amor virtude? Ora, se virtude, qual ou quais?
Será o amor vício? Uma droga que consome, que abre fendas, fissuras da alma em chamas?
Será o amor carne, pele e ossos fustigados pelo látego da vontade?
Será o amor idealização? O ideal que permite ver no outro aquilo o que ele não é? Ou pousar no ser que se contempla os olhares da invenção sem limites?
Uma fantasia que se veste, revestida de pudores, querendo em troca a lascívia viva do tato e da invasão, diga-me tu, sábio que pensa e procura.
Será o amor um teatro piegas, tolo carnaval, ópera-bufa?
Será o amor uma busca? E se busca for, que caminho seguir?
Há placas e sinais a serem obedecidos? Dá-me tu os códigos para o bem amar, se há.
Será o amor o princípio de tudo, da pedra, do vento, dos oceanos, da chuva e de tudo que anda, respira e agradece? Será o amor o princípio em si mesmo?
Conduza-me errante pensador que as eras não apagam, peregrino homem invisível das ideias que ressurgem em mim. Preciso encontrar a senha deste sonho, que é sanha a queimar minhas entranhas, sede estranha de tanto querer!
Será isto o amor que sinto? Será aquilo que me proponho a cada despertar que a manhã ilumina? Será o amor a triste sina de quem vive?
Será que amar é o verbo que não se traduz? Decifra-me tu, oráculo vivente do tempo.
Será o amor o desejo de estar, não sendo, ou o ser, não estando?
Será o amor uma promessa aflita que da boca para fora é dita?
Será o amor desdita que pulsa?
Será o amor aquele poente? Será o amor distância? Uma ponte que se levanta a cada dia, cotidiana construção de afetos sem afetações? Será o amor as famintas horas a deglutir o já vivido, um eterno reinício de algo? Será o amor esta ausência que se sente?
Será o amor o domínio do discurso? Será o amor inocência, indecência e falência?
Será o amor mistério? Revela-me tu que tanto soube dos segredos que afligem o humano.
Será o amor feitiço em desencanto, frágil cristal que se quebra?
Será o amor tudo e ao mesmo tempo o nada? Será o amor o grito?
Será o amor este silêncio?
Só sei que tudo sou!
Nela...
[Aqui o homem ajoelha-se no centro do palco, mãos em concha, simula o cair das lágrimas do rosto que a máscara esconde]

Denison Mendes
fonte: http://confrariadostrouxas.blogspot.com/ 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

BORBOLETA

Todos os dias me invento e saio do meu casulo.
Transformo-me numa borboleta de cores delicadas
e pouso nas flores mais adocicadas e mais dóceis.
Reparto entre elas o meu amor e carinho e sorvo-lhes
o âmago e suas essências.
Não sou de ninguém, sou do mais belo infinito onde o
amor é o deus-maior.
Nasci para que se lembrem sempre de mim. Do veludo das
minhas asas com que acaricio os poetas, do sabor a framboesa do meu
néctar com que brindo os mortais e das minhas palavras meigas com
que embelezo a vida.
Serei sempre a menina da braboleta!

Isabel Maria

MAIS QUE UM POEMA

Não me fales de incêndios da alma,
Nem da linguagem dos amantes.
Antes, prova dos meus olhares
Do amor que só se sabe em ti.
Já me disse incontida, desmedida,
Quando sequer te percebes em mim.
Deixa que me confesse inteira,
Muito além da voz que supões.
Estou farta de emoções sussurradas
Pronunciadas no peito como cristal
Quero-te antes de qualquer palavra
Na entonação que apenas tu adivinhas

Não me digas de qualquer alvorecer
Onde não me trazes o sol, a ternura.
São teus olhos que me despertam
E me oferecem o aroma da vida.
É a doçura inquieta das tuas mãos
Néctar que veste os meus sonhos.
O dia que vejo é este em que me tomas
Quando vens antes de mim e dos sentidos
Quando me confidencias tuas saudades
E os caminhos em que me levaste
Em tuas ausências consentidas.

Não me fales de aritméticas
Dessa memória incisiva do tempo.
Meu coração desconhece algarismos
E contagens que afastam e distanciam.
Prefere-se a juntar passos, estradas
Desaprendeu dos números, da lógica
Entende-se somente em interseções
Compreende que pontos podem ser ligados
E assim, abraça-se descobrindo retas
Somando urgentes encantos e afinidades.

Não pressuponhas as rasuras de minhas dores.
Nada sabes dos abismos dos meus silêncios,
Quando o sentir é açoite pelo não expresso.
Tenho marcas palpáveis, cuja agonia e soluço
Só me sabe o escuro em que mergulho.
Apenas adentra as portas que te abro.

Anda devagar, como se deitasses em pétalas.
Não me peças para diluir na taça do impossível
Os sonhos, os desejos, os tolos tremores
Que transbordam insones em luas prateadas.
Não me ofereças o véu do comedimento
Para cobrir a alma, a carne, os sentidos

Sim, continuarei a te fazer versos,
Ainda que te conjugue imperfeitamente
Neste meu desassossego de letras,
Tropeçando em rimas, ébria de metáforas.
Mesmo que não alcance o lume dos teus sonhos,
A profundidade do que tua alma abriga,
Deixarei o eco deste amor que me guia
Na fragrância do dizer da minha poesia.
Bebo-te nesta taça até o último trago
Onde vezes te derramas quase meu...


- Fernanda Guimarães -