Um giro ao sol,ciranda poética
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Drumundana
e agora maria?
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Alice Ruiz
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
OS POEMAS
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
GÊNESIS
No Princípio era o Caos.
E então, veio a Luz.
A Luz se fez Verbo,
a Palavra Mágica se fez
coisa, corpo, carne.
E Deus criou a mulher,
e o homem a amou.
O céu se cobriu de Orgia,
pariram-se anjos e demônios.
E, por isso e nesse instante
e para sempre, nasceu,
soberana, a Poesia.
E então, veio a Luz.
A Luz se fez Verbo,
a Palavra Mágica se fez
coisa, corpo, carne.
E Deus criou a mulher,
e o homem a amou.
O céu se cobriu de Orgia,
pariram-se anjos e demônios.
E, por isso e nesse instante
e para sempre, nasceu,
soberana, a Poesia.
Santa Poesia
ave poesia
cheia de graça
o verso é convosco,
bendita sois vós
entre as palavras,
bendito o fruto
do vosso ventre:
poema
santa poesia
mãe das artes
rogai por nós poetas
agora e na hora do agouro
*******************
poema nosso
que estais no céu,
versificada seja
vossa estrofe,
seja feita
vossa vontade,
assim na tela
como no papel
o verso nosso
de cada dia
nos dai hoje,
perdoai as nossas
reticências,
assim como nós
perdoamos
os pontos finais.
não nos deixeis
cair em 'ão',
mas livrai-nos
das interrrogações
amem
by Clauky Boom
cheia de graça
o verso é convosco,
bendita sois vós
entre as palavras,
bendito o fruto
do vosso ventre:
poema
santa poesia
mãe das artes
rogai por nós poetas
agora e na hora do agouro
*******************
poema nosso
que estais no céu,
versificada seja
vossa estrofe,
seja feita
vossa vontade,
assim na tela
como no papel
o verso nosso
de cada dia
nos dai hoje,
perdoai as nossas
reticências,
assim como nós
perdoamos
os pontos finais.
não nos deixeis
cair em 'ão',
mas livrai-nos
das interrrogações
amem
by Clauky Boom
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
ENTRE PARTIR E FICAR
Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.
Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.
Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa.
Octavio Paz
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.
Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.
Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa.
Octavio Paz
MOVIMENTO
Se tu és a égua de âmbar
eu sou o caminho de sangue
Se tu és o primeiro nevão
eu sou quem acende a fogueira da madrugada
Se tu és a torre da noite
eu sou o cravo ardendo em tua fronte
Se tu és a maré matutina
eu sou o grito do primeiro pássaro
Se tu és a cesta de laranjas
eu sou o punhal de sol
Se tu és o altar de pedra
eu sou a mão sacrílega
Se tu és a terra deitada
eu sou a cana verde
Se tu és o salto do vento
eu sou o fogo oculto
Se tu és a boca da água
eu sou a boca do musgo
Se tu és o bosque das nuvens
eu sou o machado que as corta
Se tu és a cidade profunda
eu sou a chuva da consagração
Se tu és a montanha amarela
eu sou os braços vermelhos do líquen
Se tu és o sol que se levanta
eu sou o caminho de sangue
Octavio Paz
In Salamandra
eu sou o caminho de sangue
Se tu és o primeiro nevão
eu sou quem acende a fogueira da madrugada
Se tu és a torre da noite
eu sou o cravo ardendo em tua fronte
Se tu és a maré matutina
eu sou o grito do primeiro pássaro
Se tu és a cesta de laranjas
eu sou o punhal de sol
Se tu és o altar de pedra
eu sou a mão sacrílega
Se tu és a terra deitada
eu sou a cana verde
Se tu és o salto do vento
eu sou o fogo oculto
Se tu és a boca da água
eu sou a boca do musgo
Se tu és o bosque das nuvens
eu sou o machado que as corta
Se tu és a cidade profunda
eu sou a chuva da consagração
Se tu és a montanha amarela
eu sou os braços vermelhos do líquen
Se tu és o sol que se levanta
eu sou o caminho de sangue
Octavio Paz
In Salamandra
SEMÂNTICA
Não se enganem comigo:
se digo sul pode ser norte,
chego mas fico ausente,
o triste é também o belo,
procuro o que não se perde
nem se pode encontrar.
Buscar resposta nos livros
é esconder-se entre linhas.
Não creio no que se enxerga,
mas nisso que se disfarça
por mais que se tente olhar:
assim me tem seduzida.
Eis o jogo que eu persigo,
meu jeito de ser feliz,
o desafio que me embala:
sempre que escrevo "morte"
estou falando da vida.
Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus
se digo sul pode ser norte,
chego mas fico ausente,
o triste é também o belo,
procuro o que não se perde
nem se pode encontrar.
Buscar resposta nos livros
é esconder-se entre linhas.
Não creio no que se enxerga,
mas nisso que se disfarça
por mais que se tente olhar:
assim me tem seduzida.
Eis o jogo que eu persigo,
meu jeito de ser feliz,
o desafio que me embala:
sempre que escrevo "morte"
estou falando da vida.
Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus
CLANDESTINO
vou falar por enigmas
apagar as pistas visíveis
cair na clandestinidade.
descer de pára-quedas
/camuflado/
numa clareira clandestina
da mata atlântica.
já não me habita mais nenhuma utopia
animal em extinção,
quero praticar poesia
- a menos culpada de todas as ocupações.
já não me habita mais nenhuma utopia.
meu desejo pragmático-radical
é o estabelecimento de uma reserva de ecologia
- quem aqui diz estabelecimento diz escavação -
que arrancará a erva daninha do sentido ao pé-da-letra,
capinará o cansanção dos positivismos e literalismos,
inseminará e disseminará metáforas,
cuidará da polinização cruzada,
cultivará hibridismos bolados pela engenharia genética,
adubará a dosagem adequada de calcário,
utilizará o composto orgânico
excrementado
pelas minhocas fornicadoras cegas
e propagará plantas por alporque
ou por enxertia.
já não me habita mais nenhuma utopia.
sem recorrer
ao carro alegórico:
olhar o que é,
como é, por natureza, indefinido.
quero porque quero o êxtase,
uma réplica reversora da república de Platão
agora expulsando para sempre a não-poesia
da metamorfose do mundo.
já ão me habita mais nenhuma utopia.
bico do beija-flor suga glicose.
no camarão
em flor.
Waly Salomão
In Lábia
apagar as pistas visíveis
cair na clandestinidade.
descer de pára-quedas
/camuflado/
numa clareira clandestina
da mata atlântica.
já não me habita mais nenhuma utopia
animal em extinção,
quero praticar poesia
- a menos culpada de todas as ocupações.
já não me habita mais nenhuma utopia.
meu desejo pragmático-radical
é o estabelecimento de uma reserva de ecologia
- quem aqui diz estabelecimento diz escavação -
que arrancará a erva daninha do sentido ao pé-da-letra,
capinará o cansanção dos positivismos e literalismos,
inseminará e disseminará metáforas,
cuidará da polinização cruzada,
cultivará hibridismos bolados pela engenharia genética,
adubará a dosagem adequada de calcário,
utilizará o composto orgânico
excrementado
pelas minhocas fornicadoras cegas
e propagará plantas por alporque
ou por enxertia.
já não me habita mais nenhuma utopia.
sem recorrer
ao carro alegórico:
olhar o que é,
como é, por natureza, indefinido.
quero porque quero o êxtase,
uma réplica reversora da república de Platão
agora expulsando para sempre a não-poesia
da metamorfose do mundo.
já ão me habita mais nenhuma utopia.
bico do beija-flor suga glicose.
no camarão
em flor.
Waly Salomão
In Lábia
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Confissão
Continuo escrevendo pra você...
certo que, bem menos.
menos tempo
menos entusiasmo
menos amor
mais cansaço.
Entretanto, conservo-o
vivo e quente na memória
da pele, do cheiro, do tato.
Certo...
Cada vez menos reticências,
carências e síndromes de abstinências-
que ratificam a espera impugnada;
os laços em nós, desatados.
Não sinto mais ausência nem
dor;
Só apuro os fatos, e ...sem querer,
novamente me delato:
Sim, eu ainda te amo!
Lúcia Gönczy
O amor é como uma ponte suspensa
O amor é como uma ponte suspensa: são precisos dois bons apoios para a ponte aguentar.
Mas quem não quer construir pontes nunca chegará à outra margem.
Há quem prefira o abismo do que a entrega e descoberta.
Mas quem não quer construir pontes nunca chegará à outra margem.
Há quem prefira o abismo do que a entrega e descoberta.
http://oladocultodamarciana.blogspot.com/
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